Então aconteceu. O que nós, os brasileiros que gostam de futebol, especulávamos, mas não desejávamos. E pior: não esperávamos. Não da forma como aconteceu. Um nocaute que deixou toda uma nação atordoada, e que seguirá cambaleante até que uma nova chance de redenção (se é que isso é possível) surja. Talvez em 2018, quem sabe? Mas dessa vez deu Alemanha. Azedaram nosso feijão.
Incontestável.
Particularmente encarei tudo com bom humor como bom brasileiro que sou (ou acho que sou). Busquei numa característica nacional – a capacidade de rir de si mesmo – a fuga para a frustração do que foi aquela partida. E assim fiz piada, e ri minha risada amarela. Nada mais propício para a ocasião.
Como parte da brincadeira pós jogo pensei várias vezes no “e se...”, mas o resultado já estava estampado, não havia chance de mudança.
Fiquei chateado, mas não chorei e não senti vergonha. Não deixei de gostar do meu país. E sobretudo, não queimei bandeira. Em primeiro lugar, porque a responsabilidade da derrota não foi minha, e muito provavelmente também não foi de quem deu a cara pra bater e entrou em campo. Em segundo lugar, porque encaro o futebol como uma diversão, saudável, com ganhos e perdas como em qualquer outro esporte. E em terceiro lugar, deixando o patriotismo de lado e ressaltando o gosto pessoal, porque acho muito bonita a bandeira nacional.
Nos momentos cruciais, durante e após o jogo, vi, ouvi e li de tudo: desde vizinhos extravasando a raiva com gritos na janela; passando por foguetórios intermináveis que estavam guardados para a grande final, mas que por força das circunstâncias tiveram de ser antecipados a contragosto; e culminando nas postagens após o jogo nas redes sociais.
Numa sociedade em que o papo de boteco divide as atenções com os intermináveis toques de dedos nos smartphones, as opiniões foram variadas, e algumas delas nada “smart”. Muita gente frustrada, algumas estampando a palavra Vergonha em letras garrafais. Outras fazendo piadas infelizes e de extremo mal gosto. E por fim, muitas, mas muitas postagens relacionando a derrota do Brasil em campo com a disputa política que toma fôlego no pós-copa. Nada mais natural em ano de eleição.
As opiniões nesse sentido também variaram e podem ser genericamente numeradas da seguinte forma: 1) existem os tementes do sucesso de Aécio Neves nas eleições por conta do resultado brasileiro na copa (muitos deles partidários de Dilma); 2) os que se aproveitam do resultado em campo para atacar o atual governo, muitas das vezes de forma tacanha (muitos deles partidários de Aécio); 3) e os profetas do apocalipse, ou a turma do “eu não disse?”, que “já previam” o fracasso brasileiro em campo, e consequentemente, buscam se opor politicamente a um dos lados, ou aos dois ao mesmo tempo.
Passando longe das ofensas e exaltações de cada um desses três grupos, era inegável, e até esperado, a antecipação da disputa eleitoral causada pelo anticlímax causado pela saída do Brasil na copa. E é o que está acontecendo. Também é inegável que essa disputa se define, dentro dos moldes eleitorais atuais, nas figuras de Dilma e Aécio.
Surgem questões.
O que podemos esperar dessa disputa? Usarão a copa como jargão de campanha? É preocupante que os brasileiros, transformados em “massa de manobra”, adotem o discurso de um e de outro? Sem dúvidas. Mas o mais preocupante, na minha opinião, é algo que tem a ver tanto com a campanha do Brasil na copa, quanto com as eleições de outubro: a necessidade, e busca constante de um herói.
Durante toda a preparação da seleção brasileira e, consequentemente, ao longo da campanha no mundial, me deparei inúmeras vezes com esse sentimento nacional de busca pelo herói. Um herói que redime todas as mazelas sociais, as festas com o dinheiro público, a inoperância e superfaturamento de Deputados e Senadores, etc. Um herói em campo para problemas extracampo.
Temos Neymar! E quando não temos, temos Júlio César, David Luiz.
Salvadores de uma Pátria que coloca o coração na ponta da chuteira, e todas suas frustrações no espaço de uma bola. E quando esses heróis não dão conta? Quando a bola deixa de ser frustração e torna-se apenas bola? Onde está o herói? Quem nos salvará?
E aí entra a política.
Vivemos uma democracia representativa. Um sistema de escolha de indivíduos que são convocados a representar uma maioria, ou uma parcela significativa da população. E aí mora o perigo: em muitos casos, ao chegar o período eleitoral, esse sistema deixa sua aura de sobriedade para se tornar um sistema de seleção de heróis.
A verdade por trás dessa busca eleitoral por um herói de capa e espada expressa um dado importante, eu diria, essencial: a maior parte da população do Brasil não entende o seu papel no sistema democrático representativo. O que é extremamente perigoso e reforça o sistema de busca do herói.
O que acontece é bem simples: selecionamos um grupo de indivíduos e a partir daí damos a eles carta branca para fazer o que bem entender com o nosso dinheiro, com nossas leis, conosco. Em outros termos, é como se contratássemos um grupo de seguranças para nossa casa, e abandonássemos os mesmos por lá, sem querer saber como realizarão o serviço, e até mesmo se o farão. Democracia representativa sem fiscalização não existe!
O que me tira o sono não é o fato do desconhecimento geral do papel do cidadão no sistema democrático – isso pode ser resolvido com instrução. O mais preocupante é o desejo em continuar sem saber. Ou pior, a geral falta de vontade em assumir, cada um, seu papel social, relegando a um terceiro uma responsabilidade que é sua. Deixando nas mãos de heróis sem caráter, as rédeas de uma carruagem puxada por nós mesmos.
Meu desejo é que nas eleições desse ano, cada um reflita um pouco mais sobre o seu papel na sociedade, como fiscais e guardiões do bem público, daquilo que é nosso. E que não caiamos no culto ao herói, através do discurso inflamado. Pois eles estão lá, de capa e espada esperando a oportunidade, implorando para que sejam os escolhidos. Uma busca pela glória pessoal e pelo prestígio.
Que sejamos brasileiros com muito orgulho! Mas com um pouco mais de amor a nós mesmos.